Bebês Reborn: O Que São e Por Que Viraram Polêmica Nos Últimos Dias
Nos últimos dias, um tema inesperado tomou conta das redes sociais no Brasil: bebês reborn. Enquanto para alguns são apenas bonecas realistas colecionáveis, para outros, elas provocaram estranhamento — e até preocupação. Mas afinal, o que são esses “bebês” hiper-realistas? Por que tantas pessoas começaram a tratar essas bonecas como filhos? E por que isso virou motivo de debate acalorado?
Neste post, vamos explicar o que são os bebês reborn, como surgiu a polêmica e quais reflexões importantes podemos tirar desse fenômeno.
O que são bebês reborn?

Os bebês reborn são bonecas extremamente realistas, criadas artesanalmente com o objetivo de se parecerem ao máximo com um bebê humano de verdade. Elas têm detalhes impressionantes: veias, dobrinhas, cílios, cabelos implantados fio a fio e até mesmo peso e cheiro semelhantes aos de um recém-nascido.
Essas bonecas surgiram nos Estados Unidos nos anos 1990, como parte de uma arte que mescla escultura, pintura e modelagem. Hoje, elas são produzidas por artistas chamados “reborners” e podem custar de centenas a milhares de reais, dependendo da qualidade e do nível de realismo.
Originalmente, os bebês reborn eram buscados por colecionadores e também utilizados como ferramenta terapêutica em alguns contextos, como o luto materno ou em pacientes com Alzheimer. No entanto, com a popularização nas redes sociais, seu uso ganhou novas formas — e novas polêmicas.
Como surgiu a polêmica?

A polêmica ganhou força no Brasil a partir de postagens de influenciadoras digitais que começaram a tratar seus bebês reborn como filhos reais. Uma das figuras mais comentadas foi a influenciadora fitness Gracyanne Barbosa, que apresentou o “Benício”, seu bebê reborn, com vídeos carinhosos e frases como “meu filho está crescendo”.
Outros vídeos, ainda mais impactantes, mostravam partos simulados — com placenta de silicone, bolsa amniótica, cordão umbilical e tudo. Em muitos casos, as influenciadoras narravam a experiência como se fosse real: “Estou em trabalho de parto”, “estamos indo para a maternidade”, “ele nasceu”.
Esses conteúdos dividiram opiniões: enquanto alguns internautas consideraram fofo ou artístico, outros expressaram preocupação com o nível de envolvimento emocional. Assim, o debate foi além da estética — e passou a envolver questões sobre saúde mental e maternidade simbólica.
Por que isso gerou tanta discussão?

O que causou tanto alvoroço não foi a existência dos bebês reborn em si, mas sim a intensidade com que algumas pessoas passaram a tratá-los como filhos reais — com rotina, enxoval, consultas e até quartinhos decorados.
Para muitos, esse comportamento levantou sinais de alerta: seria isso um simples hobby ou indicaria um sofrimento emocional mais profundo?
É aí que começa o debate. Por um lado, algumas pessoas usam os bebês reborn como forma de lidar com perdas, solidão ou até traumas de maternidade. Para essas pessoas, o reborn pode funcionar como um recurso terapêutico. Por outro lado, quando o vínculo ultrapassa os limites da fantasia e interfere na vida real, pode ser um sinal de que algo emocional precisa de atenção.
O que dizem os psicólogos?

Segundo psicólogos, o uso de bebês reborn pode, sim, ter efeitos positivos — desde que seja feito com consciência e dentro de um contexto seguro. Em situações de luto, por exemplo, algumas mulheres que perderam filhos encontram nesses bonecos uma forma simbólica de acolher a dor. Em lares de idosos, especialmente com pacientes com Alzheimer, o uso terapêutico dos reborn tem mostrado efeitos positivos na redução da ansiedade, promovendo conforto emocional e estímulo afetivo.
No entanto, o alerta surge quando a fantasia ultrapassa os limites saudáveis e começa a se confundir com a realidade cotidiana. Quando a pessoa passa a tratar o reborn como se fosse, de fato, um bebê real — organizando rotina, criando vínculos familiares fictícios, simulando partos em ambiente doméstico e compartilhando tudo publicamente nas redes — é preciso parar e refletir.
Psicólogos como Rafaela Monteiro explicam que essa imersão completa em uma realidade imaginária pode ser um indicativo de sofrimento emocional mais profundo. Muitas vezes, o reborn é usado para preencher um vazio — como o luto não elaborado, traumas da infância, a dor por não conseguir engravidar ou sentimentos de abandono e solidão. Até certo ponto, essa fantasia pode funcionar como um escape. Mas quando ela se torna a principal forma de lidar com a dor — sem diálogo, sem apoio e sem tratamento — a pessoa corre o risco de se desconectar da vida real.
Essa desconexão com a realidade pode ser prejudicial à saúde mental porque impede que a pessoa enfrente e elabore suas emoções de maneira madura e consciente. Em vez de acolher sua dor e buscar ajuda, ela constrói um mundo fictício onde tudo parece estar “resolvido”. Isso pode gerar dependência emocional da fantasia, isolamento social, dificuldade de manter relações reais e, em casos mais graves, agravar quadros de transtornos psicológicos como depressão, ansiedade ou delírios afetivos.
O papel das redes sociais: entre o encanto e o excesso

As redes sociais não apenas divulgaram o universo dos bebês reborn — elas o transformaram em um verdadeiro espetáculo. No TikTok e no Instagram, vídeos de partos simulados, ensaios newborn com bonecos e até registros de “primeiro dia de aula” dos reborn geram milhões de visualizações. Esse tipo de conteúdo costuma emocionar, entreter e criar uma estética de cuidado que, à primeira vista, parece inofensiva.
Mas o que acontece quando o algoritmo recompensa a performance mais dramática? A lógica da viralização incentiva narrativas cada vez mais intensas, levando criadores a ultrapassarem limites para manter o engajamento. Surge então um ciclo: quanto mais afeto explícito, mais views; quanto mais views, mais incentivo para aprofundar a fantasia.
Esse fenômeno levanta uma nova questão: até que ponto estamos consumindo (ou produzindo) conteúdos autênticos? O “faz de conta” vira rotina, e, em muitos casos, não sabemos mais onde termina o personagem e começa a pessoa real. Isso afeta tanto quem cria quanto quem assiste, especialmente se o público é formado por pessoas emocionalmente vulneráveis, como jovens solitários, mães em luto ou pessoas com histórico de traumas afetivos.
Outro ponto delicado é a romantização da maternidade idealizada. O bebê reborn — que nunca chora, nunca adoece e está sempre disponível para afeto — acaba virando símbolo de um afeto seguro e perfeito. Mas isso é real? Nas entrelinhas, reforça-se a ideia de que é possível “controlar” o amor, como se sentimentos fossem scripts de um vídeo de 15 segundos.
Por isso, ao falarmos do impacto das redes sociais, não se trata de apontar culpados, mas de observar os efeitos. Estamos criando espaço para o acolhimento ou apenas ampliando a fuga? O conteúdo está servindo para expressar emoções ou disfarçar dores profundas?
As redes sociais têm um poder enorme — e isso é tanto oportunidade quanto risco. Quando se trata de saúde mental, exposição e fantasia precisam caminhar lado a lado com consciência e equilíbrio.
Conclusão: valorizar os vínculos verdadeiros

Os bebês reborn encantam e surpreendem, trazendo carinho e até conforto para muitas pessoas. Eles são, de certa forma, pequenos universos de afeto e imaginação — e isso é lindo!
Mas, no meio desse carinho todo, é importante lembrar de algo simples e valioso: as pessoas de verdade, com suas imperfeições, risadas, abraços e até choros, também precisam do nosso olhar e do nosso tempo. Nenhum boneco pode substituir o calor de uma conversa sincera, um abraço apertado ou um momento compartilhado de verdade.
Por isso, brincar com a fantasia é ótimo — desde que ela não tire o espaço de que damos às conexões reais, aquelas que alimentam nossa alma e fortalecem nosso coração. Afinal, o melhor cuidado é aquele que envolve quem está aqui, do nosso lado, com todos os seus jeitos e histórias.